Saúde e Bem Estar
 
 
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Inibidor de apetite: por que é melhor evitar?

 
Ciça Vallerio
 

    O Brasil é o primeiro no ranking mundial dos países que têm maior consumo de inibidores de apetite. Posição que permanece desde 2005, com índices crescentes a cada ano, conforme denuncia a Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). Na classificação atual, ganha dos Estados Unidos, em segundo lugar, e Cingapura, em terceiro. Aqui, o uso per capita de derivados de anfetamina é 40% maior do que entre os norte-americanos.

 

    Triste para o Brasil, mas pior ainda para as milhares de consumidoras que usam remédios para emagrecer, em busca do corpo perfeito e de fórmulas mágicas para alcançá-lo. Na ânsia de perder peso rapidamente, sem se submeter a uma reeducação alimentar nem exercícios físicos, fazem vista grossa para o perigo do uso indiscriminado desses medicamentos: dependência, taquicardia, pressão alta, irritação, insônia, boca seca, etc.

 

    De acordo com o psicofarmacologista Elisaldo Carlini, do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas (Cebrid), a dependência feminina é infinitamente maior do que a masculina, numa proporção de seis mulheres para cada homem. Afinal, são elas as mais preocupadas com a boa forma. "A proporção pode ser maior ainda, dependendo do princípio ativo usado no remédio", avisa Carlini. "A situação é grave, porque esses remédios são vendidos - na imensa maioria - para quem não precisa, ou seja, quem não é obeso, mas apenas está poucos quilos acima do peso considerado saudável."

 

    Por meio do cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC), dá para avaliar quem está abaixo do peso normal (ou seja, IMC menor que 18,5), normal (entre 18,5 e 24,9), sobrepeso (entre 25 e 29,9), obesidade grau 1 (entre 30 e 34,9), grau 2 (entre 35 e 39,9) e grau 3, chamada de obesidade mórbida, (acima de 40). Para ter esta informação, basta dividir o peso pela altura ao quadrado. O cálculo também pode ser feito pelo site da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica - Abeso (www.http://www.abeso.org.br/calc_imc.htm).

 

    "Com IMC abaixo de 30, o regime pode ser administrado apenas com exercícios e reeducação alimentar, mas existem médicos que já vão passando a receita de um remédio, sem avaliar nem alertar sobre os problemas", adverte Carlini. "Não estou atacando a classe médica, mas aqueles que se desviaram da conduta ética, que, geralmente, nem são especialistas. É um grupo pequeno que faz grande estrago. Esses estão mais interessados no comércio lucrativo dos inibidores de apetite."

 

Caso extremo

 

    Sem nenhum critério, nem orientação sobre os riscos, um médico passou a primeira receita de um desses remédios para K.J.M, quando ela tinha apenas 13 anos. A funcionária pública afastada por problemas de saúde - hoje, com 35 anos - tornou-se dependente de anfetaminas e, desde então, sua vida tornou-se um inferno. Há dois anos, ela faz terapia em grupo no Hospital das Clínicas (HC). "Faz pouco tempo que passei a falar e pensar sobre o meu problema, porque é muito difícil me expor", explica a paulistana, que preferiu não se identificar. "Enquanto o vício de algumas pessoas se resume a álcool e drogas ilícitas, o meu é um coquetel."

 

    Da anfetamina, ela pulou para o álcool. Como o remédio lhe causava tremedeira e taquicardia, K.J.M tomava álcool para "relaxar". Depois passou para a cocaína, consumida durante os períodos de pausa do remédio, na tentativa de reduzir o seu consumo. Também por causa da tolerância do organismo à anfetamina, o efeito passava a não ser mais o mesmo - aí começa-se a aumentar as doses, até que novamente o organismo se "acostuma" e não responde, virando uma bola de neve.

 

    "Cheguei a tomar cinco comprimidos por dia, sendo que o indicado são dois. Sempre consegui os remédios com receita médica. Gastava metade do meu salário com os medicamentos, consulta e alimentos diet. Uma vez fiz o cálculo e daria para ter comprado um carro com tudo o que já gastei, incluindo os custos de uma clínica de emagrecimento que oferecia tratamentos estéticos. Procurei ajuda, porque estava descontrolada e também não tinha dinheiro para mais nada. Há dois anos que não chego perto desses remédios. Não deixei de ter vontade, ela apenas ficou mais espaçada. Mas, quando vem, é muito forte e muito louco."

 

    Nessa hora, K. sofre para resistir, pois, como explica, a anfetamina funciona como uma "injeção de ânimo" - para os dependentes, vale lembrar. Ela sentia que sua energia aumentava, tinha mais pique para fazer tudo ao mesmo tempo, seu humor melhorava, ficava mais comunicativa. Enfim, uma sensação de bem-estar. Por outro lado, passou a conviver com o indesejável efeito sanfona, além de todos os outros problemas decorrentes da dependência química e psicológica.

 

    Quando começou a se medicar, ela tinha IMC 23 (1,68 metro de altura e 65 quilos), considerado saudável. Mesmo assim, ela quis "secar". Agora pesa 120 quilos. Como já é esperado, basta parar de usar inibidores de apetite para engordar mais do que os quilos perdidos. No momento, ela se trata gratuitamente no Programa de Atendimento à Mulher Dependente de Álcool e Drogas (Promud), que funciona no Instituto de Psiquiatria do HC.

 

Falsa confiança

 

    Silvia Brasiliano, psicóloga do Promud, conta que 21% das integrantes do grupo são dependentes de anfetamina, entre outros tipos de substâncias anorexígenas. Portanto, são poucas as que procuram o ambulatório por causa desse problema. Para a médica, isso se explica pela confiança que muitas têm nesse tipo de medicamento, já que é indicado por um médico que, na maioria das vezes, prescreve uma fórmula "individual", criando a falsa idéia de ter sido elaborada "especialmente para a paciente".

 

    "Falta muita informação e, se o médico não avisa, não há motivo para achar que o remédio vai fazer mal, por isso imaginamos que não não há tanta procura por tratamentos. No Brasil, o remédio não é visto como droga, apesar do controle realizado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)", explica Silvia. "Além dos médicos, é bom lembrar que as mulheres têm, sim, sua parcela de culpa, porque, em busca de um padrão de beleza, vão atrás de regimes malucos, fórmulas mágicas que as façam emagrecer rapidamente."

 

    Junto com a psiquiatra Patricia Hochgraf, também do Promud, Silvia realizou uma pesquisa sobre a relação desse tipo de dependência com transtornos alimentares. O resultado desse estudo assusta: mais da metade das dependentes têm algum distúrbio alimentar. K.J.M é uma delas. Além de anorexia, desenvolveu bulimia no passado. Entre aquelas que deixam de usar inibidores, é comum passarem a fazer dietas radicais. Também foi o caso de K.J.M.

 

    Apesar da irrisória procura por tratamentos, aquelas que vão parar no consultório, geralmente, tomam a decisão por pressão da família. Filhos, marido e amigos não suportam mais conviver com alguém que vive irritado, com oscilações bruscas de humor, insônia, entre outros problemas. "As mulheres são muito mais estigmatizadas quando assumem um vício, diferentemente dos homens", observa Silvia. "Além dos inibidores, algumas passam a associar o consumo a outros medicamentos, como os benzodiazepínicos, encontrados em calmantes, tranqüilizantes e soníferos. Não é à toa que muitas do grupo perderam trabalho, se afastaram de amigos e até da família."

 

    O endocrinologista Fadlo Fraige Filho, chefe do serviço de endocrinologia do Hospital Beneficência Portuguesa, lembra que os abusos acontecem, muitas vezes, na formulação. "Médico erra ao ultrapassar as doses permitidas pela Anvisa, preconizadas nos livros de medicina", avalia Fraige, também professor titular da Faculdade de Medicina do ABC . "Esses medicamentos são indicados em casos de obesidade, e o ideal é que se faça uma avaliação após um mês de uso. Mas, hoje, como existem remédios mais modernos, quase não trabalho com inibidores."

 

    Um deles é a substância chamada sibutramina, classificado como "saciógico", porque dá a sensação de saciedade. Outro, que logo entrará no mercado, é o rimonabanto, que atua na gordura abdominal: baixa a gordura e o açúcar no sangue e é indicado para obesos com diabete. Muita atenção para produtos batizados de fitoterápicos, como chás, comprimidos, entre outros. Os tais dos "compostos vegetais emagrecedores". O endocrinologista alerta:

 

    "Não tem nada de natural, mas sim uma mistura que leva substâncias proibidas. Ninguém sabe a composição da fórmula e, por conta desse disfarce, os fitoterápicos são vendidos livremente no mercado. "

 

    Com a chegada do verão, já começou a correria para ficar em forma rapidamente - e de fórmulas milagrosas. O médico avisa, porém, que qualquer regime precisa de reeducação alimentar e atividade física. Estas são as bases para um emagrecimento eficaz, saudável e duradouro.

 

Fonte: Yahoo

 
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